sexta-feira, 12 de junho de 2009

Um longo dia de ressaca-quase um passo para a lucidez

 A bêbada acordou de ressaca. Pensou que trocaria a noite passada por qualquer outra sensação que não tivesse aquele zumbido estranho e que não doesse quando pisasse. Passou o dia sozinha com a avó, descobrindo que aquela velhice está a apenas 52 anos de distância. Passou o dia desconversando consigo. Não quis ir a lugar algum porque já tinha ido e mesmo amanhã não vai querer, mas vai.

A vida no fundo do mar funcionou até o momento em que o peixe tentou conversar com a lula e ficou um enorme silêncio de associação. Agora cada um na sua própria praia pode contar os infinitos grãos de areia da vida que escapa.

Pensar em ninguém, disgusto, quebranto, folie, febre, zas.

A bêbada conta os dias para parar de beber e bebe ávida de espanto os dias que restam. Até lá, vai ser muito feliz. Até lá, vai manter-se paciente. Até lá, vai fingir que conhece a cara da felicidade.

Decide navegar na internet, que deveria ser mais seguro. Mas alguém debochando de seu descaso escreveu no topo de todas as páginas: Mentira!

Até que depois de constatar a quantidade significativa de pessoas com o mesmo nome que o seu, encontrou o seguinte depoimento que lhe calou e de maneira enlouquente riu em pleno silêncio:

 

“Bom, o que dizer de mim?
Sou ator da novela Beleza Pura, fui ator da novela Paraíso Tropical, porém antes da fama, trabalhei numa feira de artesanatos e iniciei minha carreira quando venci o concurso de mister estudantil. No colégio "Barão de Mauá" iniciei as minhas primeiras experiências com as artes cênicas que era obrigatória no currículo estudantil. Sou romântico e adoro agradar a Yana, enchendo-a sempre de presentes. Estou surpreso, mas muito feliz com o sucesso do meu personsagem Felipe. Obrigado a todos vcs por isso. Bom, é um prazer poder interagir com o mundo através deste instrumento maravilhoso que é o Orkut.
Obrigado a todos que acompanham o meu trabalho. Peço desculpas por não conseguir tempo de responder os scraps ou os depoimentos, mas infelizmente meu tempo está curtíssimo. Queria que me compreendessem...
Vou parando por aqui, pois quem se define, se limita...” ( Gustavo Leão)

hhahahahah... ops!

Saiu da página sem querer, e quando resolveu reiniciar as buscar pelo nome da pessoa percebeu que existiam um milhão de fakes do jovem ator, todos verossímeis e nunca saberia qual deles  tinha encontrado, mas queria crer que o real era aquele que namorava a Yana. Para finalizar escreveu seu nome de novo no campo de pesquisa, era isso e lá estava ele de novo! Ficou repetindo o gesto quase cego.

domingo, 26 de abril de 2009

Primeiro sinal

Um apito frio que invade a platéia como um foco de luz em direção à arena, surpreendente, como o primeiro, ainda meio sem sentido, como o primeiro, prematuro, como o primeiro, demasiado, destinado, embriagante ( o quanto tudo cabe num primeiro sinal, o início e seu fim).

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Ps:

Ps: Exceto o ano e o mês de publicação no Estado de S. Paulo, nada me chama a atenção num texto onde tudo faz todo o sentido que não faz sentido algum. Não sei se sou o narrador e você a ruiva do cão basset. Não sei, nem ao menos, se gostaria um dia de escrever como Caio Fernando Abreu, me descuidando do sexo e de suas odisséias. Poderíamos todos sermos o cão basset e daí fugiríamos, como você pretende, dos muros da linguagem. Mas eu ando atenta, atenta e desatenta, desalentada demais para acreditar na importância dos sujeitos. Apenas me movem e demovem os predicados e seus adjetivos. Essa coisa louca e intensa, densa, que é a nossa vida quando pesada na mesma balança. A igualdade é o que mais me apaixona e aprisiona. (A linguagem o que deveríamos aprender na academia). 

Exceto o ano da publicação, a existência de tal escritor, e a epifania de "ter a face para outra pessoa que também tem uma face para você" ou a "tentação" da Clarisse em arriscar falar do abismo, NADA  mais teria me feito te mandar esse texto. 

Bjos.


terça-feira, 14 de abril de 2009

L'ultime vague**

Quanta coisa passa, me parece que o tempo inteiro foi desacontecendo muito rápido e que nós estávamos nele.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Reencontre*

Eu não sabia girar a chave de casa, numa porta a chave gira para um lado, noutra porta, para o outro.  Arranquei os adesivos do Estado do elevador, não faz sentido ter que ficar olhando para uma ordem falha e infantil.

 

sábado, 4 de abril de 2009

Silêncio


Introdução:

Se tivesse dito a solução viria do espaço bem fora do tempo, entenderia como tirar você de trás da tua capa. A realidade seria a chuva metafísica, inundaria o mundo de soluções, sequestraria a sua música de sua abstração e faria filhos com ela. De quem seria a cor dos olhos? A cor dos cabelos? De quem seria as primeiras palavras de um filho que anda por aí, pela chuva, pela noite?

Dirijo as estrelas, sou fã dos astros, busco encontros e tenho um medo insuportável da morte. Medo do canto da sereia maldita e louca.

Irmandade

Já te sinto como se te conhecesse amigo na infância, irmãos nos pensamentos mais cruéis, na apreensão da irrealidade. Eu te digo desapareça, cresça e penso mais uma vez, irremediavelmente na morte.

Sonho, loucura 1

Vivo me esquecendo. Vou arrebentando o peso do tempo, estourando suas veias, derramando paixão, cólera, volúpia pelos ares. Vivo lembrando que esqueço despedidas, medidas de segurança, alegorias.

Pesadelo, os fantasmas 2

Acordo para a infâmia. Me lembro de quando percebi que meu telefone não tocava mais e de como me senti inútil. O mundo desaparecendo com suas utopias, o meu desejo pelo espaço, por uma saída da via láctea. Vivo sempre pensando o quanto é natural não querer mais ser gente. Desaprender tudo desde o começo.

Captopril

Tudo o que é insuficiente e que nele excede.

Pavor

Do palco, da cara sem máscara, do mofo na fantasia, da câmera quebrada.

E se fosse possível, temeria a capacidade de construir mundos sonoros e paralelos.

Desconstrução 1

Dizem que minha geração não pensa, que ela só faz barulhos. Não compõe, não reage, não capta, uma geração prosac, que faz tudo escondido na corrente sanguínea.

O início

Voa! Vai atrás de suas asas, de suas próprias estradas, cante e mande os males para bem longe. Qualquer verdade pode salvar uma criança na chuva. Pegue-a pela mão e atravesse a sua rua.









terça-feira, 31 de março de 2009

Do verbo "Aprendre"

Custa a vir a paisagem, o homem, a cor púrpura do céu, a mão que suspende o corpo e aprende o peso.

Eu ainda não aprendi a deixar tudo isso correr sem mim.

Humana demasiada humana, um dia desses vou querer desbancar Balzac.